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João Pinheiro/Minas Gerais

História

O processo de colonização da região, provavelmente na metade do século XVIII, ocorreu no período que antecede a descoberta do ouro nas regiões das minas com o movimento das entradas e bandeiras rumo às terras de Paracatu.

Antes da ocupação pelo homem branco, o território era habitado apenas por ameríndios (da tribo de Cataguá) e negros fugitivos das minas de Paracatu e de Goiás.

Por volta de 1818, nas proximidades das margens da Vereda da Extrema, surgiu um pequeno povoado, fundado por bandeirantes e tropeiros que buscavam a Capitania de Goiás, este foi o primeiro pouso do homem branco nestas paragens. No entanto, alguns desses aventureiros se fixaram animados pela criação de gado e pelos garimpos de diamantes, no Rio Santo Antônio. Foi uma febre e esta passou a ser a principal atividade do arraial nascente.

O povoado recebeu o nome de Santana dos Alegres, esta foi a primeira denominação do primitivo arraial pertencente ao bispado de Pernambuco – que deu origem ao município atual.

Segundo a tradição oral, um boi curraleiro muito bravo que vivia nas adjacências do local, frequentemente, ao anoitecer, ia para o arraial e lá permanecia durante toda a madrugada a mugir. O hábito daquele animal, chamado Alegre, intrigava a todos. Conta-se que esta foi a razão do nome do povoado.

Em 1873, o povoado de Santana dos Alegres foi elevado a distrito (em terras de Paracatu). Até 1902, o garimpo foi bastante explorado às margens do rio Santo Antônio e no leito de outros cursos d’água. Em 30 de agosto de 1911, Santana dos Alegres, recebeu seu nome atual, e foi-se desmembrado de Paracatu.

Em divisão administrativa referente ao ano de 1911, a vila é constituída de 6 distritos: João Pinheiro, Água Limpa, Benfica, Canabrava, Catinga e Veredas. Assim permanecendo nos quadros de apuração do recenseamento geral de 1-IX-1920.

Em 1925 foram-lhe concedidos foros de cidade e sede de município. Elevado à condição de cidade com a denominação de João Pinheiro, pela Lei Estadual nº 893, de 10-09-1925.

Em divisão territorial datada de 1-VII-1950, o município é constituído de João Pinheiro, Caatinga (ex-Catinga), Canabrava e Veredas.

Pela Lei Estadual nº 2764, de 30-12-1962, é criado o distrito de Olhos d`Água do Oeste e anexado ao município de João Pinheiro.

A cidade possui algumas festas de tradição, como é o caso da Festa do Peão de Boiadeiro, realizada em abril, o carnaval fora de época, João Pirô, realizado em outubro e a Festa da Cidade, realizada em setembro.

Em divisão territorial datada de 31-XII-1963, o município é constituído de 5 distritos: João Pinheiro, Caatinga, Canabrava, Olhos d`Água do Oeste e Veredas.

Pela Lei Estadual nº 8285, de 08-10-1982, foram criados os distritos de Luizlândia do Oeste e Santa Luzia da Serra ex-povoados e anexados ao município de João Pinheiro.

Em divisão territorial datada de 1-VII-1983, o município é constituído de 7 distritos: João Pinheiro, Caatinga, Canabrava, Luizlândia, Olhos d`Água do Oeste, Santa Luzia da Serra e Veredas.

padroeira da cidade é Santa Ana, cuja festa litúrgica se dá em 26 de julho.

Representações Das Experiências Compartilhadas Em João Pinheiro (Mg): Memórias E Histórias Dos Moradores

Maria Célia da Silva Gonçalves; Giselda Shirley da Silva; Vandeir José da Silva

Resumo: Este conteúdo tem por finalidade discutir “cidade e modernidade” estabelecendo como plano de observação à cidade de João Pinheiro que completou 110 anos de emancipação política em 2021. Sua localização é na região do Noroeste de Minas Gerais – Brasil. Estabelecemos como marcos temporais da pesquisa os anos de 1960/2012. Foram feitas reflexões sobre a transformação do espaço da cidade a partir da construção da BR O40 que liga a antiga capital do Brasil – Rio de Janeiro a nova sede administrativa Brasília – DF, inaugurada em 1960. A partir da pesquisa foi possível percebermos que toda a região do Noroeste de Minas passava por um significativo isolamento por faltas de estradas que viabilizasse o escoamento da produção econômica bem como investimentos para o desenvolvimento da região.

Introdução

Foi possível detectar através de documentos encontrados nos arquivos municipais que houve um crescimento populacional na área urbana de 1500 em 1957 para 36.761 pessoas em 2010, e estimasse 47.990 pessoas em  [2021]. Esse crescimento da área urbana ocorreu em decorrência da migração dos moradores dos distritos e da zona rural para a cidade de João Pinheiro a procura de melhores oportunidades de trabalho, estudo e moradia, bem como, a migração inter-regional em decorrência das carvoarias, agricultura e pecuária desenvolvidas no município. Essas transformações na cidade demonstraram mudanças não somente no espaço físico e estrutura da cidade, mas também no cotidiano dos moradores seus costumes, saberes e fazeres. Justificamos esta pesquisa, por compreendermos a necessidade de trabalhos científicos que discutam temáticas não somente de grandes centros, mas também regionais e os impactos das mesmas.

Para a realização do trabalho buscamos responder ao seguinte questionamento: de que maneira a cidade é representada por seus moradores? Como aconteceu a (re)apropriação do espaço urbano? Quais os principais fatos permanecem nas lembranças dos narradores acerca da cidade e da sua transformação? O trabalho foi realizado através da metodologia qualitativa. Foram realizadas várias incursões sobre arquivos de memórias através de entrevistas orais e arquivos documentais e iconográficos, entrecruzando as fontes. Procuramos entender o passado como forma de representação da realidade vivida. O objetivo do estudo foi perceber a maneira como homens e mulheres representaram os fatos vividos e a transformação do espaço da cidade de João Pinheiro (MG) – Brasil.

Ao final da pesquisa foi possível percebermos que a cidade é filha do seu tempo, fruto das transformações sociais que seus moradores fizeram/fazem em seu cotidiano e a maneira como partilham experiência individuais e coletivas formando a identidade local na reconstrução contínua no espaço urbano.

A cidade é filha de seu tempo, fruto das transformações que seus moradores fazem em seu cotidiano e a forma como partilham experiências, histórias individuais e coletivas:

Um modo de construir sentidos que influencia e organiza tanto nossas ações quanto a concepção que temos de nós mesmos. […], pois o lugar é o específico, o concreto, o conhecido, o familiar, o delimitado, onde as práticas sociais específicas moldam e formam identidades (HALL, 1999, p. 50-72).

A cidade, como espaço de vivência, é um local de encruzilhada, múltiplos caminhos e experimentos diversos, valores, tradições, que fazem da cidade um local privilegiado de experiências. As ruas da cidade, o traçado e tamanho das mesmas… Transformam-se, são remodeladas… Casas antigas dão lugar às novas. Surgem preocupações com a estética da cidade, reforma e limpeza das ruas, melhoria no abastecimento de água potável, estabelecimento do Código de Posturas normatizando a estética, o padrão das ruas e casas da cidade: “A cidade permanece a todos, mas não do mesmo modo; a todos cabe zelar pela cidade, mas não do mesmo modo, todos participam do fazer e do manter a cidade, mas não do mesmo modo” (JUNIOR, 2008, p. 216).

Arquivos colhidos em 2011

Dona Zoraida escreveu sobre as lembranças que possuía acerca da cidade de sua infância, como se quisesse deixar para a posteridade o cenário da Vila que não existe mais e, nas suas palavras, vai desenhando as ruas e suas especificidades:

A vila do Alegre era triste, calada, carente, cheia de mato. Tinha quarteirão sem uma casa, era só mato, capoeira alta. Onde as vacas do Sr. Ribeiro escondiam as crias e passavam carreira nos meninos que iam apanhar goiaba que tinha muito no meio do mato. Era o lugar preferido também dos jumentos do Felício esconder do sol e passar susto na gente que ia passando com aqueles urros medonhos que eles soltavam.

Zoraida Coimbra Nepomuceno. Nasceu em João Pinheiro em 05 de fevereiro de 1915.

Animais na rua, como menciona Dª Zoraida, era normal no cotidiano da vila. Isto é perceptível na Ata da Sessão Ordinária da Câmara Municipal quando decreta no seu Art. 71: “Dentro do patrimônio municipal, não será permitida a pastagem de animais, devendo, os que forem encontrados soltos nas ruas, serem levados para o curral do Conselho” (SOUZA, 1999, p. 36).

De acordo com essa Moção, os animais que fossem recolhidos no perímetro urbano só poderiam ser retirados pelos proprietários em um prazo de cinco dias; caso contrário, seriam vendidos em hasta pública e a importância recolhida aos cofres municipais. O Art. 75 da referida Moção refere-se à criação de suínos: “É igualmente proibido ter solto nas ruas e praças desta vila, porcos, cabritos e carneiros, procedendo-se da mesma maneira que o Art. 71” Podemos observar que a proibição de animais soltos pelas ruas do patrimônio era preocupação da Câmara Municipal.

Nas representações de Genésio Ribeiro, ao assumir a Administração municipal em 1931, as ruas estavam cobertas de matagais e muito danificadas pelas enxurradas:

Na qualidade de prefeito deste município, venho apresentar a vossa excelência o relatório dos negócios municipais, referentes aos três primeiros meses de minha gestão. Ao assumir o cargo em dois de janeiro do corrente ano (1931), encontrei a administração completamente desorganizada, nenhum empregado se conservava no posto. Tinham-se exonerado há mais de um mês e as vagas ainda não haviam sido preenchidas […] os serviços públicos estavam em completo abandono, às estradas em ruínas. As ruas da cidade cobertas de matagais e gravemente danificadas pelas enxurradas, o cemitério da cidade servindo de pastos para os animais por haver caído parte do muro que o cerca e, finalmente, a canalização da água que reclamava urgentes reparos. Durante o primeiro bimestre decorrido, a prefeitura só conseguiu arrecadar a importância de três contos, oitocentos e doze mil e oito réis (3.812$08) de um orçamento de 38.500$000, embora se vá empregando a maior energia na arrecadação (SOUZA, 1999, p.79).

Preocupado com o visual da cidade e o mato nas ruas, Genésio Ribeiro escreveu em seu relatório o resumo da Administração municipal no primeiro semestre de 1932, quando enviou ao Secretário do Interior seu relatório e abordou as Obras públicas municipais:

As ruas da cidade estão danificadas e carecendo em todos os tempos de cuidado por parte das administrações. Tem merecido atenção cuidadosa da prefeitura. As ruas outrora, cheias de mato e buracos estão presentemente em bom estado. Mandei limpar e consertar, fazendo aterros, abaulamentos, calçadas e encascalhamento, de maneira a tornarem-se transitáveis por veículos de qualquer espécie,

o que antes era feito com muito sacrifício e risco de prejuízo para seus proprietários.

Conforme Genésio, as principais medidas adotadas pela administração no início de sua gestão foi a limpeza e o “conserto” das ruas da cidade, da estrada de automóveis do Rio da Prata, a construção de mata-burros, a limpeza no cemitério e o abastecimento da água.

O Sr. José Benevides, ao relembrar da cidade de outrora, mencionou sobre o traçado das ruas, o comércio, os antigos moradores, como se se descortinasse diante de seus olhos a cidade das primeiras décadas do século XX:

As ruas da cidade eram tortas, a não ser a praça, que era o largo da Matriz. Na porta da cadeia tinha outra rua que era conhecida como a Rua da Palha, ali onde hoje é o Posto Alberico. Tinha a Rua do Sobrado onde hoje é a Casa da Cultura. Tinha a Rua dos Padres, que é a Rua Frei Carmelo. Ela era cheia de voltas. Tinha a Rua Capitão Speridião que era dali de onde é hoje o “Serve Bem”, dali para baixo.

2 Ata da Quarta Sessão Ordinária do Conselho Consultivo desta Prefeitura, na primeira quinzena do mês de junho de 1932. Estes relatórios eram feitos em conformidade com o que dispunha o artigo 13, número IX, do Decreto nº 21.348, de 09 de agosto de 1931, do governo Provisório da República (Getúlio Vargas)

3 José Benevides Costa nasceu na “Fazenda Jardim, em um lugarejo chamado ‘Valente’ em 25 de abril de 1913”.

Tinha a Rua da Água Limpa. Tinha a caixa d’água dela para baixo. A cidade acabava ali de onde é hoje o Banco do Brasil e o Juca Cordeiro morava lá. Até lá tinha as casas de telha e mais acima, tinha umas casas de palha. João Pinheiro era dali para baixo.

Partilhando suas lembranças, contou-nos Dona Benedita Batista Rabelo, sobre as lembranças da cidade que conheceu na infância:

A cidade de João Pinheiro quando eu mudei para cá, era pequenina. As casas eram salteadas, ralas. Onde havia uma concentração maior de casas, mais alinhadas, era no largo da Matriz, a Praça Coronel Hermógenes. Não tinha carros, bicicletas na rua. As pessoas eram todas unidas, havia conversas nas portas das casas no final das tardes. Podiam-se deixar as casas abertas que não havia perigo. Era todo mundo unido.

Dona Benedita Batista Rabelo – Natural de Paracatu (MG). Residente em João Pinheiro desde a década de 1920 onde permaneceu até o falecimento em 2011. Atuou como diretora e professora, contribuindo de forma significativa para educação.

Largo da Matriz, 1938. Fonte: Acervo Casa da Cultura

A construção do espaço urbano constituído por ruas pequenas e com poucas casas era o retrato do cotidiano da Vila de outrora, com poucos moradores e o estabelecimento de relações sociais, econômicas e afetivas entre os moradores do lugar.

Largo da Matriz.,1953. Fonte: Acervo do Sr. José de Oliveira.

As casas retratavam a arquitetura da época e evidenciavam a situação econômica de seus proprietários. Casas maiores, menores, mais baixas, cobertas de telhas, palhas, estruturas de aroeira, outras de pau-a-pique, adôbe, muros baixos, cercas de achas de aroeira ou cercadas de arame.

 Vista parcial do antigo Largo da Matriz – Atual Praça Coronel Hermógenes . Fonte: Arquivo: José de Oliveira.

A municipalidade tentou normatizar as construções como prevê o Art. 54 da Legislação local: “Todos os serviços de construção, bem como o alinhamento e arruamento dos prédios, serão cuidadosamente fiscalizados pelo agente fiscal”. Todavia, as casas com cercas de arame e/ou de madeira ainda continuaram a fazer parte do cenário urbano por um longo tempo. Ata da Quarta Sessão Ordinária da Câmara Municipal da João Pinheiro do dia 19 de setembro de 1927.

As telhas foram substituindo aos poucos as coberturas de palha. Os tijolos de alvenaria substituindo as paredes de pau-a-pique e adôbe. Ainda assim, muitas eram as casas com paredes de adobe, sendo este objeto feito a partir de uma técnica rudimentar e que exigia um saber fazer tradicionalmente repassado: “A fabricação do adôbe, como a feitura das paredes, exigem certos conhecimentos do barro a ser empregado” (RIBEIRO, Op. Cit., p. 276). Há multiplicidade de saberes na invenção do cotidiano e transformação do espaço de vivência. O Sr. José Benevides conta sobre as construções do período:

Cerca feita com estacas de madeira. Forma usada para “cercar” as propriedades. Antigo fórum de João Pinheiro. Fonte: Acervo Casa de Cultura

No tempo do governo do Genésio Ribeiro, as casas eram baixas. A maioria das casas era pequena. Algumas delas era com paredes feitas de madeira, barreadas de barro, chamadas de pau-a – pique. Outras casas eram quase tudo de adobe. O telhado era de telha curva, redonda, feita nas olarias daqui mesmo. O Zé Batista Franco tinha uma olaria ali na beira da extrema, que fazia tijolos para vender para o povo, mas depois do governo do Genésio. Ele fez muito tijolo e vendia para as construções da cidade. Tinha algumas casas muradas. O muro era baixo, estaqueados de cerca de aroeira. As casas tudo tinha esteio.

Casa do Sr. Saturnino. Fonte: Acervo Casa da Cultura.

Na narrativa do Sr. José Benevides, é possível imaginar as mudanças no cenário urbano. Nesse sentido, escreveu Bosi a seguinte reflexão: “as casas crescem no chão e vão mudando: canteiros, cercas, muros, escadas, cores novas, a terra vermelha e depois, o verde umbroso. Arbustos e depois árvores…” (BOSI, 1988., p. 74). E assim, a memória vai desenhando o espaço de outrora.

O crescimento da cidade

Muitos idosos, ao caminhar pelas ruas da cidade, ficam perdidos em suas reminiscências ao ver que muitas coisas do seu cotidiano vão ficando para trás… As ruas se modificando, prédios sendo demolidos dando lugar a outros de arquitetura mais moderna… e aquele banco da praça onde costumava encontrar os amigos… De repente… Não esta mais lá. Foi retirado porque não combina mais com a praça revitalizada… O beco onde residia a comadre com quem sentavam para conversar e contar histórias deu lugar a uma rua larga e pavimentada. Para alguns, estas transformações passam despercebidas; para outros, é como se fizesse parte daquele cenário que se foi, como se a história local se entrelaçasse à sua própria história. Escreveu Bosi (1998) “[…] Os hábitos locais resistem às forças que tendem a transformá-los, e essa resistência permite perceber melhor até que ponto tais grupos, a memória coletiva tem seu apoio sobre as imagens espaciais. Com efeito, as cidades se transformam no curso da história.”.

Viagem no interior do município. Fonte: Acervo do Sr. José de Oliveira, 1928

Analisando as palavras da autora, buscamos na reminiscência das pessoas mais idosas da cidade as lembranças acerca da mesma, entrecruzando teoria e empiria. Nesse sentido, escreveu Dona Zoraida:

Às vezes fico sentada no alpendre vendo essa minha cidade, tão bonitinha, com suas ruas asfaltadas, suas avenidas arborizadas, seus prédios, suas mansões e fico procurando com o pensamento a minha vila que foi isso aqui e fico perdida no tempo. Sumiu. A cidade engoliu. Só deixou de fora um sobrado em ruína, inabitável, e uma casa aqui na Rua Frei Carmélio, antiga Rua Santana. A casa está toda em ruína. Assim mesmo ainda mora nela uma descendente dos antigos moradores. Essa casa e esse sobrado são as únicas lembranças da minha vila de 122 casas, assim mesmo contando os ranchos de palha ao longo da periferia.

Na memória coletiva, é comum às pessoas contarem que a cidade era pequena, os laços de amizade e parentesco que se estabeleciam na cidadela que contava em fins dos anos 1950 com 1448 habitantes, conforme os dados do Censo Demográfico, sendo que a maior parte da população residia na Zona Rural ou nos distritos. Desde a década de 1960, a cidade cresceu, tanto em número de residências quanto de habitantes; atualmente, a população urbana supera a rural, sendo sua população, de acordo com os dados do IBGE (2010), composta por um total de 36.761 pessoas na área urbana e 8.499 de população rural, já em 2021 estimasse 47.990, habitantes, na sua grande maioria moradores da área urbana.

Esta realidade se assemelhava a outras cidades da região noroeste do estado, que encontrava dificuldades semelhantes. A grande distância das capitais, do estado e do país, associadas à precariedade das estradas e à falta de meios de transportes para escoamento da produção foram às principais razões que mantiveram a região neste estágio de desenvolvimento.

Ao abordar a urbanização de João Pinheiro enquanto espaço privilegiado de ações, lançamos olhares pelos caminhos e descaminhos da história local, procurando estabelecer relação entre o pensar e o fazer a arquitetura e urbanização, construídas pelo conjunto de mãos, muitas delas anônimas, que deram forma à cidade:

Escreveu Dona Zoraida sobre a Vila presente em suas memórias:

A vila era toda gramada por dentro e por fora, ao redor. A natureza deixou essa grama que vivia sempre verdinha e aparada pelos animais que viviam soltos nas ruas. As ruas só tinham casas de um lado, do outro, era só fundo de quintal. Tudo cercado de lascas de aroeira, já que naquele tempo não havia muro. As casas eram de adobe ou sopapo pois não havia tijolo também. A grama tomava conta das ruas só deixando um trilho no meio e dois sulcos de lado, feitos pelas rodas de carro de boi, já que o transporte de tudo era feito por tropa e carro de boi. Hoje o chique é ter o seu automóvel. Naquele tempo, o chique era ter um bom cavalo marchador com arreio prateado.

Ao rememorar a paisagem da cidade, Dona Zoraida descreve detalhadamente como eram as casas, como se redesenhasse o cenário em suas memórias:

As casas melhores eram todas assoalhadas e forradas de taboas largas, tiradas na serra aqui mesmo. Eram todas caiadas de branco de cal feito aqui mesmo, de pedra calheira. Eram cobertas de telhas feitas por Martinha Telheira. Daqui mesmo. Em frente das casas tinha um calçadão feito de lage de pedra calheira. Em frente dessas casas tinha sempre uma tora comprida de madeira apoiada em dois tocos. Ali em noite de luar as famílias sentavam para comentar os últimos acontecimentos da vida ou mesmo podar a vida alheia. Enquanto as crianças brincavam de roda e chicotinho queimado na grama em frente a casa.

A frente das casas haviam árvores plantadas pelos moradores e também fazia parte das portas das residências, bancos de madeira onde se assentavam no fim da tarde para o bate-papo com os vizinhos e conhecidos, contavam os causos, partilhavam experiências, constituindo-se em local socialização. Contou Dona Benedita:

Havia um costume aqui, por causa da falta de diversão, quase toda casa tinha um banco na frente, e o pessoal juntava e ia uns para porta das casas uns dos outros, no largo, e conversa até altas horas da noite… A gente chegava. Ficava ouvindo os mais velhos contar a história deles. Tinha também aquelas festas importantes no largo né tinha a festa de Nossa Senhora do Rosário e os congados. A gente conhecia todo mundo. Era bom!

Sociabilidades entre pinheirenses. 17/01/1953. Fonte Acervo Sr. José de Oliveira.

É interessante perceber os laços de sociabilidade estabelecidos no espaço urbano, pela proximidade das casas, das pessoas e a forma de organização da sociedade. As conversas ao final da tarde na porta das casas dos vizinhos possibilitavam o partilhar de memórias, momentos em que se estreitavam os laços, possibilitando também as crianças o estabelecimento de amizades e partilhar de brincadeiras coletivas, como as mencionadas pelos narradores, tais como, chicotinho queimado, roda, passar anel, cair no poço, boca de forno, dentre outras citadas pelos narradores. Nesse sentido, o processo de socialização, como um jeito específico de influência mútua relaciona o indivíduo à coletividade, uma forma de enraizamento onde as pessoas se misturam e relacionam partilhando memórias e experiências.

Pelas representações dos narradores, percebemos a cidade como o palco de sentidos. As casas abertas e as conversas do final da tarde nas portas das casas permitem-nos perceber a atribuição de sentidos dados ao lugar, às relações de confiabilidade, os laços de compadrio e amizade, os espaços transformados em lugares os quais permanecem na memória. A ausência da televisão possibilitava que as pessoas tivessem mais tempo para conversar e partilhar experiências. Esse era o espaço comum, lugar de intimidade e divulgação das experiências por meio das narrativas orais, momentos que contavam causos da história e cotidiano da cidade.

Pontilhão do Rio da Prata. Porto Diamante,1952. Fonte: Acervo do Sr. José de Oliveira.

Ao assumir a presidência do Brasil na década de 1950, Juscelino Kubstichec apresentou ao país o “Plano de Metas”, com o objetivo de fazer o Brasil crescer “50 anos em 5”. A construção de rodovias, estradas, hidrelétricas e implantação de indústrias automobilísticas eram algumas das metas de seu governo. A obra símbolo de sua gestão foi à construção de Brasília para sediar a nova capital do país, inaugurando-a em 1960.

Trabalhadores da Construção da rodovia BR-040 em João Pinheiro. Década de 1950. Fonte: Acervo da Sra. Maria Mariana Soares.

Com o advento de Brasília fazia-se necessário ligá-la à antiga capital federal, a cidade do Rio de Janeiro; por isso, visando uni-las, investiu-se na construção da rodovia BR 040, conectando Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Brasília.

O percurso dessa rodovia, rasgando o sertão das Minas, mudou a história do Noroeste mineiro. Um dos nossos narradores nos fala desse tempo:

[…] Isso aqui era a maior dificuldade, era uma distância danada. Não tinha asfalto. Num tinha estrada. Num tinha ponte. Para ir para Belo Horizonte a gente gastava 2 a 3 dias de carro. Num tinha nada. Tinha de ir pra Patos de Minas, depois passava para a Serra da Saudade.

Nas representações do narrador, compreendemos as dificuldades encontradas no acesso aos centros mais desenvolvidos. Nesse sentido, os municípios “cortados” por esta rodovia seriam beneficiados, viabilizando o transporte e o escoamento da sua produção. Segundo Yolanda Romero, o projeto de construção da rodovia foi alterado durante a sua execução, em decorrência de jogos de interesse de políticos e pessoas influentes da região:

*O papai, José Romero da Silveira, foi prefeito aqui na década.

  1. Era um político importante na região. Na época ela gastava tudo que tinha com política para ajudar as pessoas e o município. Era um político muito bem conceituado e muito amigo e admirador do Juscelino Kubitschek. Ele foi a Belo Horizonte e em uma reunião com políticos e lá ele foi informado do trajeto da Rodovia que seria construída a rodovia ligando Belo Horizonte a Brasília. Visualizando o mapa, ele percebeu que no trajeto da rodovia ela não incluiria o percurso em João Pinheiro. Vendo isto, ele marcou um encontro com JK em João Pinheiro juntamente com autoridades do governo, o Deputado e médico Dr. Candido Gonçalves Ulhôa e várias pessoas importantes do local para um churrasco. O churrasco foi na Casa do Tio Lindolfo onde houve apresentação de banda de música. Durante a reunião, estando com o mapa da rodovia em mãos, o papai solicitou de Juscelino uma revisão do trajeto da rodovia, pedindo assim que alterasse o percurso inserindo João Pinheiro no trajeto, deixando de passar em Patos de Minas.*

Yolanda Romero , nasceu na década de 1950 e viveu aqui sua infância. Filha de José Romero da Silveira. Entrevista concedida em agosto de 2011 ao XIII SHCU.

A BR foi construída no município no final da década de 1950 e possibilitou a cidade um impulso rápido após sua construção, distanciando-se urbanisticamente do arraial de outrora: “Muitos eram os viajantes que passavam por ela, fossem com destino ao Rio, Belo Horizonte ou Brasília, atraindo pessoas da região que vieram investir no município”, disse o Dr. João Batista Franco.

A falta de um Código de Posturas e uma preocupação com o visual urbano, do traçado de ruas, era um agravante na estrutura física da cidade e muitos transtornos causaram aos governantes na segunda metade do século, quando se começou a preocupar com a imagem da cidade. Eram muitos os becos, ruelas estreitas, ruas sem alinhamento.

Igreja Matriz Santana  1943. Fonte: Acervo José de Oliveira

O Código de Posturas normatiza as construções e obras públicas devendo as mesmas respeitar as normas estaduais, sanitárias e idílicas locais, bem como as restrições de zoneamento e loteamento urbano. O código atual entrou em vigor 1991 por meio da Lei nº 413/91. E o resultado da preocupação com o aspecto físico, sanitário e urbanístico da cidade. Relatou o Sr. João Batista:

Aqui no centro, quando a gente pegou a Prefeitura era uma dificuldade. Tinham becos… Os chamados becos… Beco da Catinha, Beco da Dorila. Beco… Onde morava uma pessoa o beco levava o nome daquela pessoa. Ruas estreitas, mais tortuosas. O sujeito que construía a casa fora do alinhamento. Então caprichamos principalmente no primeiro mandato. No segundo nós já tivemos mais facilidade.

O largo da Matriz na frente da Igreja era um vão sem preocupação com estética, ou u alinhamento. Não havia pavimentação asfáltica, calçamento, arborização planejada, rede de esgoto, água tratada. Narrou o Dr. João Batista:

A urbanização praticamente assim, com a preocupação de dar um alinhamento às ruas, de criar praças, de dar um alinhamento nas praças. Fazer meio-fio, fazer sarjeta… Isso ai já foi no nesse período de 60, 70. Começou… Começou com o Senhor Dozinho. O largo mesmo, a Praça Coronel Hermógenes, ele começou a fazer umas sarjetas, uns meio-fiozinho de pedra. Agora, à parte, por exemplo, de preocupação com mo esgoto, de preocupação com o calçamento, com o asfalto, já foi mesmo no nosso período.

Parque de Exposição de João Pinheiro. Fonte: Acervo Sr. João Batista Franco.

O crescimento da cidade exigia dos prefeitos uma forma diferente de governar. Segundo o Dr. João Batista, uma das suas primeiras preocupações ao assumir a prefeitura em 1973 foi estabelecer um plano de urbanização. Abriu novas ruas, desapropriou as casas que impediam o segmento das que já existiam, fez aterros e terraplanagem, cortou morros, alargou ruelas, construiu praça, plantou jardins:

Nós fizemos um plano de urbanização da cidade pra melhorar a situação das ruas havia muitas casas impedindo o seguimento de rua. Então nós tivemos oportunidade de indenizar várias pessoas e abrir ruas. Urbanizamos essa praça. Caprichamos muito com a urbanização. Os loteamentos novos… As ruas já foram mais organizadas. A pessoa construía a casa fora do alinhamento, nós indenizávamos e fomos endireitando as ruas… Caprichando.

Natural de João Pinheiro. Dr. João Batista, atuou como advogado e exerceu o cargo de prefeito por dois mandatos. (Entrevista realizada em 2011) ao XIII SHCU.

Calçamento da Praça Coronel Hermógenes. Fonte: Acervo Dr. João Batista Franco

A cidade enquanto concretização do homem é um fazer intenso e ininterrupto. Construções e reconstruções se sucedem no espaço geográfico, criando novas formas, novos espaços, nos permitindo imaginar o espaço urbano como algo inacabado e com caráter funcional. Ela vai se modificando á medida que a sociedade também se transforma.

Avenida Juca Cordeiro. Setembro de 1970. Fonte: Acervo Prefeitura Municipal.

Com base nas lembranças dos narradores fomos “desenhando” a cidade de outrora, buscando perceber as transformações do espaço urbano e como a cidade foi sendo construída/reconstruída ao longo do tempo. Nesse sentido, precisamos lembrar que nossas reminiscências estão intimamente relacionadas com a História, sendo estas, fruto de uma seleção interna, vista como experiência e parte da identidade individual e coletiva.

Conclusão

Entendemos que o sertão das gerais, “Noroeste de Minas”, é pouco pesquisado tornando-se um campo aberto para estudiosos que tenham interesse nas mais diferentes expressões sejam elas: culturais, sociais ou econômicas. Procuramos fazer reflexões acerca de imagens múltiplas da cidade e a maneira como essas podem servir para se compreender o contexto histórico da modernização das cidades em especial a cidade de João Pinheiro. A cidade de João Pinheiro de hoje é resultante do vivido e das experiências de seus habitantes, na conjunção das sucessivas gerações, pois todos que por aqui passaram inscreveram seus nomes na história local; suas ruas e casas contam histórias, seus idosos são testemunhas oculares dos acontecimentos de outrora. Por isso, a memória é ponto fundamental de ligação entre a cidade de hoje e a de ontem.

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